18 setembro 2014

Vida de estudante

É tão bom ser ignorante, porque assim vivo sempre com a sensação que ainda tenho tanto por conhecer e aprender. Vivo num constante deslumbramento da procura e contentamento das descobertas que impulsionam a ver, sentir e intuir um alargado naco de sonho misturado com a matéria que é bela quando se olha para ela com outros olhos.

Não procuro o conhecimento cumulativo, de coleções de quadros de verdade, procuro o conhecimento da sintonia com o todo,  numa relação amorosa com humor à mistura, aquele humor que sabe rir da pequenez humana, quando paradoxalmente se sente infinito.

19 agosto 2014

O jogo da cabra cega

“Procurando descobrir ou determinar quais as relações entre ciência e filosofia, estamos jogando, ou vendo jogar, à cabra cega, coisa de meninos transferida para gente grande; e com isto quero dizer o seguinte: que estragamos o jogo, porque o julgamos realidade; joga menino, como se fosse jogo real, mas sabe que o não é; nós, e só às vezes, suspeitamos que o jogo não é real, mas ocultamo-lo, porque nisso vão os nossos empregos e receamos que no futuro não possamos viver sem geladeiras; sobretudo receamos confrontar-nos com a ideia de que a ciência e a filosofia são apenas produtos de um mundo de acção, respostas do universo a uma pergunta dirigida e a que não poderia dar outra resposta, porque lhe perguntamos, que é que eu posso fazer contigo, mundo?, quando apenas nos competia viver com ele, mundo.
Receamos dar-nos ao viver em que, em lugar de procurar a verdade a saibamos improcurável e incontrolável, excepto se a formos; em que em lugar de perguntarmos se alguma coisa é, nos limitemos a ser; (...) em que consideremos que o verdadeiro Sócrates, verdadeiro como homem, não como grego de seu século, era o do daimon; em que o verdadeiro Descartes era o da romaria e o verdadeiro Espinosa o pulidor de lentes e o verdadeiro Einstein o que morre no desespero de perceber que toda a ciência acaba numa equação e que toda a equação é apenas uma pré-verdade”.


Agostinho da Silva, Aqui falta Saber, Engenho e Arte, 1965

09 agosto 2014

A fonte do infortúnio

Nada é nosso.
Nem o corpo em que nos manifestamos.
A posse é uma ilusão.
Temos sim, o usufruto.
E os felizes são aqueles que nada possuem e usufruem.
Porque Deus criou o Homem e para o Homem um paraíso abundante.
Só que os Homens ainda são estúpidos e tudo querem possuir.
Criaram um mundo à sua imagem.
Matar, escravizar e enganar para possuir.
E é também por isso que são uns pobres infelizes.

24 julho 2014

Leveza para subir e descer montanhas

Quando fiz parte do Caminho de Santiago a mochila pesava-me. Decidi livrar-me dela enviando-a por táxi para o próximo albergue de destino.
A meio da subida de uma montanha que dividia as províncias de Leon e Galicia parei para tomar um café numa mesa de madeira junto de vacas.
Enquanto apreciava as vistas e saboreava o café chegou um grupo de peregrinos, um dos quais já tinha conhecido na noite anterior. Conversa vai, conversa vem e acabam por perguntar pelo paradeiro da minha mochila, ao que respondi que a tinha enviado por táxi porque pesava e tornava a caminhada dolorosa. Ficaram com um ar chocado e diz-me uma:
- Pero la mochila es nuestro Karma.
Na altura lembro-me que dei uma gargalhada e respondi algo do género:
- Se era o Karma, já foi.

Anos depois estou eu debaixo de uma oliveira a refletir sobre o Karma e lembrei-me deste episódio que retrata bem a minha postura perante esta crença ou verdade. É que esta história do Karma é muito complicada. Já não basta esta vida, a que se vive agora? Já não bastam os desafios desta existência num determinado contexto histórico e uma cultura que custa a entender e aceitar? Para quê trazer “coisas” de outras vidas?
O que tiver de ser vivido e resolvido é agora, pois é agora que estou a viver e eu não me recordo do que aconteceu noutras vidas. O passado passou. O Tempo continua.


Por isso, meu amigo Karma, liberto-te, vai de táxi espacial para onde quiseres. 

28 junho 2014

De volta a casa

Eram tão mágicos aqueles momentos que partilhava com a Natureza.
Nasceres e pores de sol de tirar o ar, umas vezes combinados com nasceres e pores de luas, no mato tropical de altitude acompanhada das minhas cadelas, as que salvei por serem fêmeas e aquelas que me avisavam da presença de outras serpentes venenosas que não fossem as cascavéis. Os cheiros das plantas e da terra. As trovoadas, os relâmpagos e a chuva quente. O carreirinho de formigas vermelhas alheias às nuvens a correr no céu.
Era uma adolescente estranha aos olhos da sociedade, excitava-me com estas coisas da Natureza e lá ficava horas a contemplar as obras de Deus ou lá do que queiram chamar; sentia a sua presença, sentia-me preenchida, emocionada e feliz.
Por outro lado, sentia-me desconfortável no meio das pessoas, principalmente as da minha idade. Cheguei a considerar ir para um convento.
Mas sendo jovem com uma mente inquieta e curiosa quis estudar nas escolas dos Homens sobre aquelas maravilhas, como se davam os fenómenos. Queria ser cientista do céu e da terra. Mas principalmente queria perceber porque os Seres Humanos estávam tão infelizes, doentes, solitários, maus e vingativos. Como é que isso poderia acontecer se vivíamos num lugar tão lindo, tão perfeito? Se fazíamos parte deste milagre que é a vida. Para mim, não fazia sentido. A condição da Humanidade dava-me dor no coração e tormento na alma e de certa forma, sentia quase que uma obrigação para  “salvar” os pobres da sua dor.
E quando atingi a maioridade deixei a terra selvagem rumo à Europa civilizada para estudar os livros.
Agora que chego à chamada meia-idade vejo que de pouco me valeram os estudos académicos e as poucas obras literárias que me tocaram, muitas delas só vieram confirmar o que já sabia ou traduzir o que sentia sem perceber. Muitas obras humanas, para além das literárias, só vieram intensificar o meu tormento, dar mais provas do sofrimento e perdição Humana e conspurcar a minha inocência. 
Os estudos serviram para a minha construção conceptual da vida experimentada, muito pouco sobre a essência que “compreendia” para além dos sentidos, da mente, da ciência e da cultura. E muito menos serviram para que tivessem aplicação prática em prol da "mudança do mundo."
E aqueles que também “compreendiam” e tentaram salvar a Humanidade falharam, as suas mensagens foram incompreendidas, deturpadas e usadas para outros fins, e a Humanidade continua em sofrimento.

O que andei a fazer nestes últimos tempos foi afastar-me de mim, entrar no mundo conceptual construído pelos Humanos, tentar encaixar-me e fazer algo para o melhorar. 

E a grande lição é que não posso mudar muito, nem tão pouco salvar alguém.

Resta-me viver o grande amor que sinto, partilhar com quem o quiser partilhar, e o máximo que poderá acontecer é servir de inspiração para que outros Seres vivam em felicidade também.

Mas são os bonitos, ricos e famosos que normalmente inspiram a felicidade, e eu não sou nada disso.



11 junho 2014

Os populares pupulam

Começam as festas dos Santos Populares em Portugal. 
Tal é a praga que foram dessimenadas as suas sementes no Brasil, com as ditas festas Juninas.
Eta caipirada, eh povão, sardinha assada e quentão.
Os corpos suados e a precisar de calor a deambular pelas calçadas e a saltar fogueiras trôpegos de álcool e excitação. Tal Carnaval!

Não, não consigo, divirtam-se bem longe de mim.


03 junho 2014

Partes do tudo eterno

Pobres daqueles que não sentem ou, no mínimo, não se iludem que são eternos.

Passam por esta vida da matéria a viver na matéria, para e pela matéria. Até a felicidade é material, são felizes quando a vida lhes corre bem, quando têm estímulos externos para o serem. Mas quando se encontram sós sentem-se pequenos e perdidos, a seguir as sombras. Vivem numa agonia e inquietação porque acreditam que um dia tudo vai acabar, quando o corpo por onde viajam perder a forma para dar lugar a outras formas de vida. Pensam que não há mais nada para além da matéria. Pobres coitados...

Andam tão preocupados com um quotidiano seguro, com os feitos da história humana, com as tricas políticas que jogam com a vida de milhões de cidadãos condicionados, com o divertimento, com outros afazeres de acumulação material, que se esquecem de ser mais que um corpo que come e se satisfaz, que se reproduz, que viaja e satisfaz, que compra isto e aquilo, que transforma a terra numa casa, uma pele de animal em casaco, que dá uma foda bem gostosa, que persegue o reconhecimento social, a fama, os vestidos e os relógios especiais e se satisfaz. E os carros? Belas máquinas, não? Verdadeiros brinquedos. Pois, mas isso é somente uma parcela do tudo. É só prazer do corpo de sensações, da razão estética e dogmática, da imaginação e da ilusão. Mas é somente uma parcela engraçada desta experiência divina, a experiência dos seres humanos.

Tudo é tão mais do que o que se vê com os olhos e a razão. Tudo é tão mais do que se sente com o coração.
Como tudo isto funciona é mistério, e o que seria a vida sem mistérios, sem surpresas e descobertas através da eternidade? Não gostam do mistério? Não gostam de descobrir? De aventuras nas estrelas?

A matéria (o corpo) é apenas um veículo que está a passar por aqui. Um recetáculo da energia que anima o universo. Um pedaço de energia que quis ser um ser único. Ter uma identidade que tem consciência de que é um ser.

Que maravilha é viver a eternidade neste corpo de água, ossos e cabelos.


Pena que tenho que levar com os materialistas e pena porque me compadeço. 

18 maio 2014

Cornadas na pança III

"Não há a mínima desculpa para qualquer acto que nos iguale aos que nos atacam. 
(…) No próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas"


Agostinho da Silva, Sete Cartas a Um Jovem Filósofo