04 outubro 2014
18 setembro 2014
Vida de estudante
É tão bom ser ignorante, porque assim vivo sempre com a sensação que ainda tenho tanto por conhecer e aprender. Vivo num constante deslumbramento da procura e contentamento das descobertas que impulsionam a ver, sentir e intuir um alargado naco de sonho misturado com a matéria que é bela quando se olha para ela com outros olhos.
Não procuro o conhecimento cumulativo, de coleções de quadros de verdade, procuro o conhecimento da sintonia com o todo, numa relação amorosa com humor à mistura, aquele humor que sabe rir da pequenez humana, quando paradoxalmente se sente infinito.
Não procuro o conhecimento cumulativo, de coleções de quadros de verdade, procuro o conhecimento da sintonia com o todo, numa relação amorosa com humor à mistura, aquele humor que sabe rir da pequenez humana, quando paradoxalmente se sente infinito.
19 agosto 2014
O jogo da cabra cega
“Procurando descobrir ou determinar quais as
relações entre ciência e filosofia, estamos jogando, ou vendo jogar, à cabra
cega, coisa de meninos transferida para gente grande; e com isto quero dizer o
seguinte: que estragamos o jogo, porque o julgamos realidade; joga menino, como
se fosse jogo real, mas sabe que o não é; nós, e só às vezes, suspeitamos que o
jogo não é real, mas ocultamo-lo, porque nisso vão os nossos empregos e
receamos que no futuro não possamos viver sem geladeiras; sobretudo receamos
confrontar-nos com a ideia de que a ciência e a filosofia são apenas produtos
de um mundo de acção, respostas do universo a uma pergunta dirigida e a que não
poderia dar outra resposta, porque lhe perguntamos, que é que eu posso fazer
contigo, mundo?, quando apenas nos competia viver com ele, mundo.
Receamos dar-nos ao viver em que, em lugar de procurar a verdade a saibamos improcurável e incontrolável, excepto se a formos; em que em lugar de perguntarmos se alguma coisa é, nos limitemos a ser; (...) em que consideremos que o verdadeiro Sócrates, verdadeiro como homem, não como grego de seu século, era o do daimon; em que o verdadeiro Descartes era o da romaria e o verdadeiro Espinosa o pulidor de lentes e o verdadeiro Einstein o que morre no desespero de perceber que toda a ciência acaba numa equação e que toda a equação é apenas uma pré-verdade”.
Receamos dar-nos ao viver em que, em lugar de procurar a verdade a saibamos improcurável e incontrolável, excepto se a formos; em que em lugar de perguntarmos se alguma coisa é, nos limitemos a ser; (...) em que consideremos que o verdadeiro Sócrates, verdadeiro como homem, não como grego de seu século, era o do daimon; em que o verdadeiro Descartes era o da romaria e o verdadeiro Espinosa o pulidor de lentes e o verdadeiro Einstein o que morre no desespero de perceber que toda a ciência acaba numa equação e que toda a equação é apenas uma pré-verdade”.
Agostinho da Silva, Aqui falta
Saber, Engenho e Arte, 1965
09 agosto 2014
A fonte do infortúnio
Nada é nosso.
Nem o corpo em que nos manifestamos.
A posse é uma ilusão.
Temos sim, o usufruto.
E os felizes são aqueles que nada possuem e usufruem.
Porque Deus criou o Homem e para o Homem um paraíso abundante.
Só que os Homens ainda são estúpidos e tudo querem possuir.
Criaram um mundo à sua imagem.
Matar, escravizar e enganar para possuir.
E é também por isso que são uns pobres infelizes.
Nem o corpo em que nos manifestamos.
A posse é uma ilusão.
Temos sim, o usufruto.
E os felizes são aqueles que nada possuem e usufruem.
Porque Deus criou o Homem e para o Homem um paraíso abundante.
Só que os Homens ainda são estúpidos e tudo querem possuir.
Criaram um mundo à sua imagem.
Matar, escravizar e enganar para possuir.
E é também por isso que são uns pobres infelizes.
24 julho 2014
Leveza para subir e descer montanhas
Quando fiz parte do Caminho de Santiago a mochila
pesava-me. Decidi livrar-me dela enviando-a por táxi para o próximo albergue de
destino.
A meio da subida de uma montanha que dividia as
províncias de Leon e Galicia parei para tomar um café numa mesa de madeira
junto de vacas.
Enquanto apreciava as vistas e saboreava o café
chegou um grupo de peregrinos, um dos quais já tinha conhecido na noite
anterior. Conversa vai, conversa vem e acabam por perguntar pelo paradeiro da
minha mochila, ao que respondi que a tinha enviado por táxi porque pesava e
tornava a caminhada dolorosa. Ficaram com um ar chocado e diz-me uma:
- Pero la mochila es nuestro Karma.
Na altura lembro-me que dei uma gargalhada e respondi
algo do género:
- Se era o Karma, já foi.
Anos depois estou eu debaixo de uma oliveira a refletir
sobre o Karma e lembrei-me deste episódio que retrata bem a minha postura
perante esta crença ou verdade. É que esta história do Karma é muito complicada. Já não basta
esta vida, a que se vive agora? Já não bastam os desafios desta existência num determinado
contexto histórico e uma cultura que custa a entender e aceitar? Para quê
trazer “coisas” de outras vidas?
O que tiver de ser vivido e resolvido é agora, pois
é agora que estou a viver e eu não me recordo do que aconteceu noutras vidas. O
passado passou. O Tempo continua.
Por isso, meu amigo Karma, liberto-te, vai de
táxi espacial para onde quiseres.
28 junho 2014
De volta a casa
Eram tão mágicos aqueles momentos que partilhava
com a Natureza.
Nasceres e pores de sol de tirar o ar, umas vezes
combinados com nasceres e pores de luas, no mato tropical de altitude
acompanhada das minhas cadelas, as que salvei por serem fêmeas e aquelas que me
avisavam da presença de outras serpentes venenosas que não fossem as cascavéis.
Os cheiros das plantas e da terra. As trovoadas, os relâmpagos e a chuva
quente. O carreirinho de formigas vermelhas alheias às nuvens a correr no céu.
Era uma adolescente estranha aos olhos da
sociedade, excitava-me com estas coisas da Natureza e lá ficava horas a
contemplar as obras de Deus ou lá do que queiram chamar; sentia a sua presença,
sentia-me preenchida, emocionada e feliz.
Por outro lado, sentia-me desconfortável no meio
das pessoas, principalmente as da minha idade. Cheguei a considerar ir para um
convento.
Mas sendo jovem com uma mente inquieta e curiosa
quis estudar nas escolas dos Homens sobre aquelas maravilhas, como se davam os
fenómenos. Queria ser cientista do céu e da terra. Mas principalmente queria
perceber porque os Seres Humanos estávam tão infelizes, doentes, solitários,
maus e vingativos. Como é que isso poderia acontecer se vivíamos num lugar tão
lindo, tão perfeito? Se fazíamos parte deste milagre que é a vida. Para mim, não
fazia sentido. A condição da Humanidade dava-me dor no coração e
tormento na alma e de certa forma, sentia quase que uma obrigação para “salvar” os pobres da sua dor.
E quando atingi a maioridade deixei a terra
selvagem rumo à Europa civilizada para estudar os livros.
Agora que chego à chamada meia-idade vejo que de
pouco me valeram os estudos académicos e as poucas obras literárias que me
tocaram, muitas delas só vieram confirmar o que já sabia ou traduzir o que sentia
sem perceber. Muitas obras humanas, para além das literárias, só vieram
intensificar o meu tormento, dar mais provas do sofrimento e perdição Humana e
conspurcar a minha inocência.
Os estudos serviram para a minha construção
conceptual da vida experimentada, muito pouco sobre a essência que “compreendia”
para além dos sentidos, da mente, da ciência e da cultura. E muito menos serviram para que tivessem aplicação prática em prol da "mudança do mundo."
E aqueles que também “compreendiam” e tentaram
salvar a Humanidade falharam, as suas mensagens foram incompreendidas, deturpadas e
usadas para outros fins, e a Humanidade continua em sofrimento.
O que andei a fazer nestes últimos tempos foi
afastar-me de mim, entrar no mundo conceptual construído pelos Humanos, tentar
encaixar-me e fazer algo para o melhorar.
E a grande lição é que não posso mudar
muito, nem tão pouco salvar alguém.
Resta-me viver o grande amor que sinto, partilhar
com quem o quiser partilhar, e o máximo que poderá acontecer é servir de
inspiração para que outros Seres vivam em felicidade também.
Mas são os bonitos, ricos e famosos que normalmente
inspiram a felicidade, e eu não sou nada disso.
11 junho 2014
Os populares pupulam
Começam as festas dos Santos Populares em
Portugal.
Tal é a praga que foram dessimenadas as suas sementes no Brasil, com
as ditas festas Juninas.
Eta caipirada, eh povão, sardinha assada e
quentão.
Os corpos suados e a precisar de calor a
deambular pelas calçadas e a saltar fogueiras trôpegos de álcool e excitação. Tal
Carnaval!
Não, não consigo, divirtam-se bem longe de mim.
03 junho 2014
Partes do tudo eterno
Pobres daqueles que não sentem ou, no mínimo, não
se iludem que são eternos.
Passam por esta vida da matéria a viver na
matéria, para e pela matéria. Até a felicidade é material, são felizes quando a
vida lhes corre bem, quando têm estímulos externos para o serem. Mas quando se
encontram sós sentem-se pequenos e perdidos, a seguir as sombras. Vivem numa agonia e inquietação porque acreditam que um dia tudo vai acabar, quando o corpo por onde viajam perder a forma para dar lugar a outras formas de vida. Pensam que não há mais nada para além da matéria. Pobres coitados...
Andam tão preocupados com um quotidiano seguro, com
os feitos da história humana, com as tricas políticas que jogam com a vida de
milhões de cidadãos condicionados, com o divertimento, com outros afazeres de
acumulação material, que se esquecem de ser mais que um corpo que come e se
satisfaz, que se reproduz, que viaja e satisfaz, que compra isto e aquilo, que
transforma a terra numa casa, uma pele de animal em casaco, que dá uma foda bem
gostosa, que persegue o reconhecimento social, a fama, os vestidos e os
relógios especiais e se satisfaz. E os carros? Belas máquinas, não? Verdadeiros
brinquedos. Pois, mas isso é somente uma parcela do tudo. É só prazer do corpo
de sensações, da razão estética e dogmática, da imaginação e da ilusão. Mas é somente uma parcela
engraçada desta experiência divina, a experiência dos seres humanos.
Tudo é tão mais do que o que se vê com os olhos e a
razão. Tudo é tão mais do que se sente com o coração.
Como tudo isto funciona é mistério, e o que seria a vida sem mistérios, sem surpresas e descobertas através da eternidade? Não gostam do mistério? Não gostam de descobrir? De aventuras nas estrelas?
Como tudo isto funciona é mistério, e o que seria a vida sem mistérios, sem surpresas e descobertas através da eternidade? Não gostam do mistério? Não gostam de descobrir? De aventuras nas estrelas?
A matéria (o corpo) é apenas um veículo que está a passar
por aqui. Um recetáculo da energia que anima o universo. Um pedaço de energia
que quis ser um ser único. Ter uma identidade que tem consciência de que é um ser.
Que maravilha é viver a eternidade neste corpo de
água, ossos e cabelos.
Pena que tenho que levar com os materialistas e
pena porque me compadeço.
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